Saturday, April 28, 2007

Le goût des petits plaisir


Deitar a cabeça num travesseiro macio, abraçar o lençol e sentir cheirinho de amaciante;
Vento soprando os cabelos da menina;
Dobrinhas de bebê;
O sol batendo na fresta da janela;
Morango com calda de chocolate;
O barulho das crianças pulando na piscina num sábado ensolarado;
Um gato te ensinando tudo o que você precisa saber sobre leveza, só com seu andar;
Um cachorrinho se coçando no chão do jardim, levantando terra do chão;
O som das chuvas torrenciais de março, e depois, o cheiro quase entorpecente da dama da noite;
Abraços de urso quase que intermináveis, seguidos de beijos apaixonantes;
Pisar descalço na grama;
Carinho de avó;
O primeiro acorde da sua música preferida;
Ter milhares de músicas preferidas;
Suco de melancia num dia quente;
Peles e cheiros misturados;
Conversar na varanda;
Amigos presentes, mesmo que só na lembrança;
Sorrir pras pequenas coisas;
Ver. Ouvir. Cheirar. Provar. Tocar. Sentir.

E me diz...como posso me achar no direito de ser minimamente infeliz?

"Leite ninho com ovomaltine e um pouco d'água. Misturem isso e sejam felizes para sempre!"(Fernando Anitelli, dando a receita)
(Na foto: Donela, a boneca mais querida e Roberrrr, atrás da máscara, o palhaço, atrás do palhaço, o homem mais doce desse teatro todo)

Todo mundo é lobo por dentro

(Oswaldo Montenegro)

Você me disse que eu sou petulante, né?
Acho que sou sim, viu?
Como a água que desce a cachoeira
e não pergunta se pode passar

Você me disse que o meu olho é duro como faca
Acho que é sim, viu?
Como é duro o tronco da mangueira
onde você precisa encostar

Você me disse que eu destruo sempre
a sua mais romântica ilusão
E que destruo sempre com a minha palavra
o que me incomodou, acho que é sim!

Como fere e faz barulho o bicho que se machucou, viu?
Como fere e faz barulho o bicho que se machucou...

(Porque eu sempre adorei essa música. Mas agora, com esse Hermann Hesse me virando a cabeça, tá dose).

A figura é de uma das edições de "O lobo da estepe", de Hermann Hesse. Incrível.

Friday, April 27, 2007

Das [in]conveniências.



Fecha a luz, apaga a porta...

Vem me carinhar.

Diz aí pra minha tia que eu fui viajar.

Diz que fui pra Nova Iorque, ou pra Bagdá...

E que isso não é hora de telefonar!

Foto gentilmente roubada da minha irmã amada, Karlinha, que eu não sei em que situações tirou essa fotografia [exijo explicações, como mana mais velha].

Música gentilmente escrita pelos irmãos Ramil, [queridos toda vida].

E tema de romance gentilmente retirado dos meus arquivos confidenciais, letra P [é, P de Pablo, que vai emprestar nossa música pra eu me divertir em outros cantos, porque sei que ele é um bom rapaz, e sabe dividir].

Conversa entre desencaixados, perdidos nessa cosmo[s]pólis:

- Alô.
- Oi, querida.
- Oi, querido, que surpresa boa.
- Tudo bem?
- Tudo, e com você?
- Ah, comigo tudo bem, também.
- Na verdade, eu não estava muito bem, sab...
- É, eu também não estou nada bem!

[porque a gente tenta se adaptar, mas é lobo perdido da matilha, perambulando ofuscado entre matizes de cinza]

PS: O querido não vai ter nome aqui, mas se reconhece rapidinho, né? É.

Memórias do subsolo,

de Dostoiévski. Pra elevar a dor.

Thursday, April 26, 2007

Um dia a menos, um crime a mais...

No fundo



No fundo



No fundo...



tanto faz.
[Paralamas, e esse caminho já demasiadamente pisado]

Exilada

Quando percebeu, estava sozinha. Não que realmente estivesse, havia outros ali. Era como se estivesse em uma ilha, cercada de animais. Não que ali fosse realmente uma ilha. Talvez um dia tenha tido água, árvores quem sabe. Agora só restava asfalto, nada ali tinha alma. Asfalto e os animais. Não que fossem animais. Eram todos humanos, aqueles lá. Ela que ali era um animal. Não que realmente fosse, sempre soube que não, e no fundo desde cedo lamentara a dose extra de angústia e racionalidade (em menor grau, esta última) que a fazia diferente dos pobres coitados (?) enjaulados no zoológico. O fato é que.
Não, é verdade, não importava quem era humano, quem era animal. Ela só percebia que era diferente daquela multidão que passava freneticamente por ela, entre postes, avenidas, buzinas e concretos. Pernas de todas as cores, pernas drummonianas. Não importavam as pernas, nem todo o resto que vinha com elas, passando correndo morrendo ali, do lado dela, quase por cima dela. Ela estava oca. E irremediavelmente sozinha.

Monday, April 23, 2007

Badaladas do louco [ou talvez fosse só eu]

Andava cambaleando, pendendo para a esquerda (mesmo tonto, seguia com a alma comunista). Olhava como que não vendo. Via, mas não reconhecia o que suas retinas cansadas mostravam.
Embora tivesse passado os últimos quinze anos naquela cidade, tudo parecia novo, exatamente como no dia em que despencou de um ônibus vindo de lugar nenhum. Exatamente igual, mas com uma pequena diferença: era um novo desbotado, fumaça de gelo seco nos olhos, um novo de quem passou, mas não viveu. Ele não conseguia lembrar do motivo que o levara a sair de casa naquela manhã de sol poeirento, tampouco fazia idéia de como voltar. Passava, como que acometido de labirintite, pelas pessoas. Gente normal, de vida comum. Queria ele ter uma vida lotada de banalidades. E de coisas. Objetos, mesmo. Algo que ele pudesse tocar (há muito desistira de sentir: tocar, para ele, já bastava). Houve um tempo em que ele queria tanto fazer falta para alguém, meu Deus, uma pessoinha que fosse, ou um cachorro, alguém ou algo que precisasse de mim, como a flor solitária do planetinha do principezinho daquela história tão triste sobre amigos (não, ele estava convencido de que amigos não eram pra ele). Pensava quase que diariamente em suicídio. Tinha dias em que ele passava dormindo. Nesses, ele não pensava em suicídio, não pensava em nada. Acordava, já sem sono algum, e lembrava de Machado de Assis: dormir é um modo interino de morrer, e ele não tinha coragem pra fazer outra coisa que não dormir. Ele não via razão para ser um suicida. Nunca foi dado a desatinos heróicos. E além do mais, não tinha porque se matar. Nem por quem. Ninguém fizera mal a ele, nem bem, pra ser bem sincero. Ninguém que o deixasse com raiva. Ele sabia que só conseguiria sentir raiva de alguém que pelo menos por um instante fizesse algo por ele. Um sorriso, um abraço, e depois tchau. Mas não...ele não lembrava de ninguém. Nunca, nada. Então pra quê? Pra quem? Não havia público para o seu desfecho trágico. E ele se arrepiava todo em pensar nessas escatologias todas, os guardas arrombando sua casa, cheiro de carne podre, pele azulada, corpo inchado, e o pior de tudo: aquela gente procurando vestígios, motivos, e descobrindo que simplesmente não havia. Descobrindo, entre risinhos e olhares de pena, alguns até se reconheceriam, e mais que rapidamente tentariam disfarçar: esse aí não teve tristezas nem alegrias, não teve parentes nem amigos, não teve vida. E, andando, ele se perguntava, como alguém que não viveu pode morrer? Não sabia a resposta, mas sabia que de qualquer forma iria cheirar mal. E isso bastava para ele abortar qualquer intenção de se matar. Intenção, apenas, nem tentativa. Era um covarde, não vos disse ainda?. Um fracasso em tudo, daqueles que tentam se jogar do prédio e são amparados por um toldo, um caminhão de colchões (lixo, tenho certeza que haveria lixo embaixo do meu corpo). Não que ele fosse um grande fracasso. Um fiasco? Não. Ele não conseguiria ser grande em nada. Perdas? Nem isso: ausência de vitórias. Pensava, andava, pendia. Não entendia com continuava de pé, lembrava da gravidade, das aulas de Física no orfanato, o professor voluntário que gaguejava e suava como um porco. Lembrou de Michael Jackson, luvas e meias brancas, moonwalking numa cidade semi-deserta, semi-árida, totalmente desconhecida (não fosse pelo fato de ele acordar todos os dias ali, há quinze anos). Quis sorrir com a imagem do artista quase-branco, alguém mais bizarro que ele, mas sentiu o maxilar travar num estalo. Há anos não sorria. Quantos, uns quinze, talvez? Não. Ele não lembrava, mas era possível que nunca tivesse executado o movimento que agora quase quase. Andava. Pendia. Um barulho aleatório fez com que olhasse para o alto. Eram os sinos da igreja. E eles brilhavam tão intensamente. Ele nunca havia entrado naquela igreja, nem em outra qualquer, que se lembrasse. Mas aquela cena, os sinos tocando, seu dourado reluzindo no céu, ofuscando sua vista que nunca via nada...eles o chamavam. O homem subiu na torre da igreja. Não sabia bem o motivo, só subia, não mais pendendo, subia com firmeza, com uma ânsia que nunca sentira, como se pela primeira vez respirasse, vivesse, olhasse para as coisas e as enxergasse. Subiu, e fez que ia pular. Não pulava. Só olhava lá de cima a cidade desconhecida, pés no parapeito. Então começou a tocar os sinos. Não sabia porque fazia aquela coisa imbecil, mas tocava. Ninguém olhava pro alto, ninguém nem ouvia suas badaladas. Só eu. Eu olhei. Olhei o homem louco tocando os sinos da igreja por quase uma hora. Ele parecia sentir saudade, falta de algo, de alguém que não poderia estar ali, para quem ele não podia olhar, por mais que desse a vida por aquele olhar. Ele parecia vazio. Faltando um pedaço, era a sensação que trazia o olhar do homem que tocava os sinos da igreja como um louco desvairado. Ou talvez fosse só eu.

"In Liverpool, on Sunday
No reason to even remember you now
Except for the boy in the belfry
He's crazy, he's throwing himself
Down from the top of the tower
Like a hunchback in heaven
He's ringing the bells in the church
For the last half an hour
He sounds like he's missing something
Or someone that he knows he can't have now,
And if he isn't, I certainly am"
(In Liverpool, Suzanne Vega)